Onze

Texto escrito em 2019, para a disciplina de Leitura e Produção Textual III.

Tamires Reis Chagas

Minha pele pinica, mas ignoro, o olhar perdido do outro lado do pátio, o mesmo cenário de dez anos atrás.

Na verdade, onze. É, acho que nos próximos meses faz onze anos que eu estava sentada talvez neste mesmo banco e o menino que eu gostava na época veio falar comigo. Tinha esquecido disso, mas também não paro para ficar sentada no pátio há muito tempo. Havia mais bancos antigamente.

Onze anos depois e ainda estou no mesmo lugar. A concha agora é pintada de verde clarinho – não mais o azul marinho do CEFET – mas ainda dá para ver metade de um desenho que fizeram naquela época. Uma espécie de “homem-caixa” com braços e pernas de palito. Sempre enxerguei ali o Bob Esponja, mas os olhos, agora cobertos pela tinta verde e presentes só na minha memória, poderiam ser do Plank. Será que o pessoal sentado ali do lado tem ideia de quem seja Plank? Será que eles já pararam para reparar naquela pintura rupestre dos povos que antes habitavam a concha?

Penso neles. Lápis de olho preto na linha d’água, cinto e pulseira de spike, meias listradas até o joelho, camisa de caveira com olhos de coração. Ser emo podia ser legal no Orkut, mas no CEFET poucos tinham coragem de assumir a identidade. Os meninos héteros se esforçavam para ter o visual metaleiro e, de alguma forma, se afastar do emo. Ainda assim estavam todos segregados na concha, enquanto os quiosques pertenciam aos denominados “pagodeiros”.

Com o tempo, ou melhor, com a instalação de wifi pelo agora IFF, os quiosques acabaram se tornando o ponto de encontro dos nerds, quando esse passou a ser o estilo da moda. Apesar de esse ter sido o lugar mais presente nos meus anos de ensino médio, não tenho lembranças fortes sobre ele. Uma ou outra engraçada, mas nada realmente marcante como observar os rockeiros da concha. Bom, para que uma foto fique realmente boa, você precisa ver a cena de fora.

Não faço ideia do que leva aquelas pessoas a estarem na concha hoje, já que eles devem ser dez, quer dizer, onze anos mais novos do que eu, mas acredito que não há mais tanto esforço para parecer hétero. Ou, no mínimo, eles ouvem músicas de diferentes estilos sem se preocupar em esconder isso até dos amigos.

É pra isso que serve a função compartilhar música no story do Instagram, né?

Mas nem todo mundo se expõe tanto assim. Pelo menos não no Facebook. Já Instagram eu nem sei se o pessoal que estudou comigo no ensino médio tem. Cada vez mais restrinjo minhas redes sociais às pessoas que são de alguma forma próximas a mim. Eles devem fazer o mesmo.

Mas sei que as meninas mais inteligentes das cinco turmas pelas quais passei fazem engenharia ou medicina em federais em algum canto do país. As que ainda moram em Campos, estão casadas. As que não casaram, namoram algum dos meninos que estudaram também comigo, mas não necessariamente com elas.

Campos é uma cidade bem pequena.

Parece que todo mundo sempre soube o que queria da vida e buscou os caminhos que levariam a isso, enquanto eu estava como um desses bonequinhos de videogame, mexendo as pernas de pixels mas sem sair do lugar porque tem uma parede de pixels na minha frente.

No caso, a parede é o IFF. E aqui estou eu, onze anos depois, dentro do mesmo labirinto, pulando de um curso pro outro, assistindo todos se formarem e partirem.

Ah, tem a menina emo que eu observava na concha que também está aqui ainda, fazendo o mesmo curso que eu, até. Mas ela está noiva do menino metaleiro que namora desde aquela época, e isso de alguma forma parece compensar a falta de “movimentação”.

A única mudança que tenho é ter ido de repetente para primeiro lugar no vestibular. E isso é especial mesmo que seja num instituto federal e não em uma universidade federal, certo?

Minhas notas também são boas, sendo a maioria acima de 8, enquanto que no ensino médio, muito mal eu conseguia a média 6.

Mas é uma faculdade de humanas.

Mas mesmo assim é faculdade

Mas mesmo assim é federal.

Acredito que quem estuda comigo hoje enxerga esse pedacinho final dos onze anos como minha maior característica. “Qual seu CR?”, “você dorme?”, “se você está achando essa matéria difícil, pra mim vai ser impossível!”. Mas tudo o que eu fiz foi grifar os textos com uma stabilo pastel.

Minha pele pinica. Olho para a mão e vejo um mosquito. Com certeza é da dengue e eu vou acabar doente por ter ficado sentada no pátio devaneando. Ele voa antes de eu consiga matá-lo. Junto minhas coisas e me levanto.

Acho que vou tomar um açaí.

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