Por cus nunca dantes navegados

Texto escrito para a disciplina de Literatura Portuguesa II, em 2021, durante a graduação em Letras.

Tamires Reis Chagas

Nascido em Lisboa, Antonio Lobo Antunes é um dos mais importantes escritores da atualidade, tendo ganho premiações como o Prêmio Camões (2007) e o Prêmio Franco-Português (1987), por Os cus de Judas, obra que será tema deste trabalho. Mas antes de dedicar-se integralmente à literatura, Lobo Antunes formou-se médico pela Universidade de Lisboa e foi designado para servir como médico militar na guerra colonial que ocorreu em Angola entre os anos de 1961 e 1974, atuando no exército por quase dois anos.

É neste ponto que a história de autor e a da obra se cruzam, com o narrador personagem trazendo memórias da infância até o retorno a Portugal após servir na guerra em uma narrativa não linear, ao mesmo tempo que temos apresentada em segunda pessoa a construção do cenário em que o personagem está inserido ao rememorar estes acontecimentos.

Por quase metade do século XX, Portugal viveu o regime ditatorial de Salazar, que buscava posicionar o país como uma potência europeia retornando aos tempos dourados de Camões, ou seja, baseando-se na exploração das colônias ultramarinas para sustentar sua supremacia. Com a mobilização de grupos de resistência nas colônias, que eram contra a dominação portuguesa, iniciou-se os conflitos armados entre o exército português e a resistência nacionalista. O processo de descolonização só teve início após o fim do Estado Novo português, que ocorreu graças à Revolução dos Cravos.

É nesse contexto que se passa Os cus de Judas, com o personagem principal refletindo sobre suas memórias de quem cresceu em uma ditadura e serviu na guerra, contrapondo o que aprendeu e o que viveu enquanto questiona suas crenças e atitudes e seu lugar no mundo. Assim, temos uma obra que apresenta uma postura crítica em relação à história de Portugal, ao que podemos relacionar a um questionamento do custo da glória cantada por Camões.

Enquanto para Camões a representação do povo português se concentrava na imagem da valentia, com as explorações marítimas sendo prova disso, de modo a consolidar Portugal como um império, Lobo Antunes traz reflexões que põem essa perspectiva em xeque, desconstruindo pilares da ditatura salazarista como a família e a religião. Destacaremos neste trabalho o ideário criado por Camões em razão de ter ele se disposto a, por meio do poema épico Os Lusíadas, consolidar a identidade nacional portuguesa.

A ideia da desconstrução é presente em todo o romance, inclusive com o linguístico sendo desconstruído ao se optar pela escrita em fluxo de consciência. Em relação à imagem da sociedade portuguesa, podemos começar a analisar a desconstrução pelo núcleo familiar apresentado pelo autor nas memórias de infância retratadas. Como por exemplo; ao se referir ao bisavô, o General Machado, de quem a família se orgulhava, nosso personagem narrador deixa clara sua aversão à figura militar e seus símbolos, contrariando a ideia construída por Camões de orgulho pelos conterrâneos guerreiros.   

Neste mesmo sentido, a passagem em que suas tias demonstram expectativa de que o ingresso nas forças armadas faça do narrador “um homem”, ou seja, que a luta pela pátria o torne honrado, culmina no retorno do narrador com muito mais questionamentos do que certezas em relação ao que estava lutando, o que é outro ponto importante do contexto social em que se passa o romance. Com a imprensa censurada, além do desconhecimento sobre o que acontecia nas colônias, muitos jovens iam lutar por algo em que não acreditavam.

Com a glória pelo conflito, podemos apontar o quão forte era ainda a identidade nacional como a de um povo guerreiro, ao que Lobo Antunes desconstrói destacando a perversidade, como no trecho:

(…) a  guerra  tornou-nos  em bichos,  percebe,  bichos  cruéis  e  estúpidos  ensinados  a  matar,  não  sobrava  um centímetro   de   parede   nas   casernas   sem   uma   gravura   de mulher   nua, masturbávamo-nos  e  disparávamos,  o mundo-que-o-português-criou  são  estes luchazes côncavos de fome que nos não entendem a língua, a doença do sono, o paludismo, a amibíase, a miséria (…) (ANTUNES, 2014, p. 76)

Com o exemplo acima, é possível perceber o conflito do narrador ao enxergar o quanto foi preciso destruir – como sociedades, sonhos, futuros e psicológicos – para se construir a imagem heroica cantada por Camões e presente também na escola, o liceu, onde lhe infundiram “imagens majestosas” (ANTUNES, 2014, p.74) sobre as colônias que nada tinham a ver com a realidade encontrada.

A busca pela manutenção deste passado glorioso português muito depende de como o sujeito enxerga a si mesmo e sua relação com as instituições que compõem aquela sociedade. Dessa forma, podemos marcar a ironia com a qual o narrador se refere ao “cardeal Cerejeira”, ao “espectro de Salazar” e a “PIDE” (ANTUNES, 2014, p. 10) como a desconstrução de valores que levam ao questionamento de toda a estrutura que sustenta o “ser português” como o máximo da dignidade e do orgulho.

Com essas breves exemplificações, buscamos refletir sobre a visão crítica trazida por Antonio Lobo Antunes em relação ao passado português, não apenas como uma “fantasia desfeita”, mas em como a construção da imagem de um povo passa por elementos políticos e sociais e se consolida na arte, especialmente na literatura e, hoje, nas mídias digitais.

REFERÊNCIAS

ANTUNES, António Lobo. Os cus de Judas. Joroncas, 2014. Disponível em: <https://drive.google.com/viewerng/viewer?url=http://ler-agora.jegueajato.com/Antonio+Lobo+Antunes/Os+Cus+de+Judas+(774)/Os+Cus+de+Judas+-+Antonio+Lobo+Antunes?chave%3D1677cfea7cb1b4e721f78316a481fd9c&dsl=1&ext=.pdf>. Acesso em 30 abr. 2021.

CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. 1ª ed. Editora LL Library, 2015.

MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. 2ª ed. Editora Cultrix: São Paulo, 1971.

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