Texto produzido para a disciplina de fundamentos da Semiótica I, em 2020.
Tamires Reis Chagas
O presente trabalho tem por objetivo analisar do ponto de vista da semiótica peirciana o uso da expressão “descansa, militante” usada como meme para representar a insatisfação do interlocutor com algum questionamento de cunho social. A escolha do meme se deu por ser uma forma de expressão em alta nos tempos atuais, onde um termo é retirado do seu contexto original e aplicado a outros tantos de modo humorístico, variando sua simbologia através dos usos. Para isso serão utilizados como referenciais teóricos os textos de Pignatari (1968) e Junior e Romanini (2014).
Entende-se por meme o objeto de expressão com intencionalidade cômica que se replica pelo meio virtual de modo viral. Após a ascensão dos sites com objetivo de rede social, o termo era comumente usado para se referir ao uso de imagens específicas; desenhos padronizados montados em formato de tirinha para representar as situações em que se pretendia causar o riso. Hoje, qualquer coisa pode ser um meme, sendo a característica da reprodução excessiva sua marca principal.
A expressão “descansa, militante”, objeto desta análise, é usada, muitas vezes, para expressar a discordância com uma problematização, funcionando da mesma forma que a expressão “cala a boca”. Não é possível confirmar sua origem, entretanto, na maioria das vezes, ela aparece como comentário a alguma insatisfação social expressa em forma de post nas redes sociais, mas também pode ser usada quando um usuário da rede discorda da opinião apresentada por outro, vendo-a como excesso de problematização. Essa variedade de usos é o que dá a uma simples frase status de meme, pois permite maior reprodução.
Assim, essa reprodução exaustiva leva também a efemeridade do que é circulado pela internet, como exposto por Pignatari: “a tal incomunicabilidade resulta de um excesso ou saturação de comunicação (…), com a consequente automatização de significados, cujo primeiro risco é a formação de slogans totêmicos.” (1968, pág. 12).
O usuário de memes enxerga tais expressões como bordões que o caracterizam como parte de um grupo específico, servindo como forma de identificação: um slogan totêmico. E ao usá-las em diferentes contextos, o usuário leva o termo à saturação até o ponto em que seja esquecido.
Inserido nesse grupo, o usuário tem a chance de se projetar nas redes sociais, pois, mesmo que não seja sua criação, ao conectar o termo a uma situação nova, sua associação pode tornar-se viral, levando o usuário produtor a viralizar também. Muitos são os perfis em que os usuários estão em evidência, incluindo a econômica, apenas por fazer tais associações, não sendo focados em um tema ou repasse de informação específica. Seu papel na rede é apenas o de replicar o que pode causar riso.
Em relação a associação entre mercadoria e exposição feitas por Junior e Romanini (2014), o meme, além de funcionar como instrumento para promoção de usuários, pode aparecer, de fato como mercadoria, sendo usado como estampa de diversos produtos, como camisas, canecas e cadernos. O meme objeto dessa análise ainda não atingiu tal status, mas está sendo reproduzido como fantasia de carnaval, prática que tem se tornado comum no últimos anos.
A essa transposição para outros meios pode-se acrescentar o uso dos memes como bordões individuais, que é o caso onde, em uma interação fora do mundo virtual, a expressão é usada pelo indivíduo. Pela origem cômica da expressão, o que se percebe é a reação imediata de riso entre os interlocutores nessa situação, pois a associação é intrínseca.
Referências
JUNIOR, Silvio Nunes Augusto. ROMANINI, Anderson Vinícius. Análise semiótica sobre a lógica de produção fotográfica de autorretratos veiculados na rede social Tinder. Trabalho apresentado no V Pró-Pesq PP – Encontro de Pesquisadores em Publicidade e Propaganda. De 21 a 23/05/2014. CRP/ECA/USP.
Disponível em: <http://www3.eca.usp.br/sites/default/files/form/biblioteca/acervo/pro
ducao-academica/002737268.pdf >. Acesso em: 09 fev 2020.
PIGNATARI, Décio. Informação. Linguagem. Comunicação. SP: Editora Perspectiva, 1968. Págs. 11 – 21.