Escrito para a disciplina de Literatura Brasileira I, em 2019.
Tamires Reis Chagas
O presente trabalho tem por objetivo analisar o poema O poeta moribundo, escrito por Álvares de Azevedo, texto integrante da segunda parte do livro Lira dos Vinte Anos, dentro das características da poesia de expressão.
Álvares de Azevedo é um autor brasileiro, tendo sua obra caracterizada na segunda fase do romantismo; o ultrarromantismo, o qual tem por características obsessão pela morte, morbidez, versificação livre, satanismo, desilusão adolescente, tédio constante e erotismo.
De família abastada, o autor tinha na escrita um refúgio para escapar da monotonia da vida de estudante de direito em uma São Paulo pouco desenvolvida. Talvez por isso seja o autor dessa fase que melhor a expressa, apresentando em seus poemas o contraste entre o filho favorito e o suicida, entre o jovem tímido apaixonado e o libertino depravado.
Esse contraste é exposto pelo próprio Álvares de Azevedo no prefácio da 2ª parte de Lira dos Vinte Anos, onde ele apresenta seus dois “lados” como Ariel e Caliban, personagens da peça teatral A Tempestade, de Shakespeare, usados para personificar a binomia, conceito escolhido pelo autor para expressar a ideia de oposições.
O poema que nos propomos a analisar faz parte dessa 2ª parte, onde a lira humorística e satírica de Álvares de Azevedo complementa a sentimental, manifestada na 1ª parte de Lira. Interessante lembrar que, originalmente, o livro foi escrito para compor uma obra em conjunto com Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães, seus melhores amigos na faculdade, que se chamaria As Três Liras.
No Brasil, o Romantismo é quem apresenta exemplos da poesia de expressão, que se caracteriza por ver o mundo como algo a ser criado a partir dos sentimentos do poeta, em oposição a poesia de imitação, que apresentava em suas obras a verossimilhança ao buscar imitar o mundo.
É essa busca por criar uma outra realidade que leva muitos estudiosos da vida e dos escritos de Álvares de Azevedo a duvidar que tenham feito parte de sua rotina as práticas que eram comuns em seus textos. Impuro ou não, é clara em suas palavras a manifestação de intensos sentimentos, em oposição as fases anterior e posterior do Romantismo, com as gerações Indianista e Condoreira.
Álvares de Azevedo optou pelos decassílabos no poema O poeta moribundo, que é composto por dez quadras: dez estrofes com quatro versos cada.
Na primeira estrofe, é possível notar esse extravasamento em relação a morte, tema corriqueiro para o autor, que possuía a saúde frágil. Entretanto, o poema apresenta uma visão mais satírica do que trágica sobre o tema, ao pedir que seus órgãos sejam usados como instrumento musical.
Poetas! amanhã ao meu cadáver Minha tripa cortai mais sonorosa!… Façam dela uma corda e cantem nela Os amores da vida esperançosa!
Mas traz também marcas de sua lira sentimental na segunda estrofe, ao retornar à paisagem que remete a sua infância.
Cantem esse verão que me alentava… O aroma dos currais, o bezerrinho As aves que na sombra suspiravam E os sapos que cantavam no caminho!
Ainda fazendo comparações ao ato de tocar um instrumento, na terceira estrofe Álvares demonstra medo e sente o “coração estremecer”, sentimento incompreendido pelo poeta. Há conflito entre aceitar a morte de forma resoluta ou odiá-la, mas ambos os sentimentos são expressos pelo poeta.
Coração, por que tremes? Se esta lira Nas minhas mãos sem força desafina, Enquanto ao cemitério não te levam, Casa no marimbau a alma divina!
Antonio Candido destaca a imagem do “cisne poético degolado ao cantar os amores” (1996, p. 162) da quarta estrofe. Interessante ressaltar a crença popular de que os cisnes são mudos e só cantam quando estão prestes a morrer, sendo este canto o mais belo de todos. Apesar dessa ideia ser inverídica, é muito comum entre artistas utilizar essa metáfora para expressar sua “última” tentativa de criar algo grandioso, após ter acumulado inspirações por toda vida. Com isso exposto, podemos notar que Álvares cria uma comparação entre a juventude cheia de promessas e amores do “cisne de outrora” com a morte iminente do “marreco piando na agonia”.
Eu morro qual nas mãos da cozinheira O marreco piando na agonia… Como o cisne de outrora… que gemendo Entre os hinos de amor se enternecia.
Nas quinta, sexta e sétima estrofes, o poeta indaga novamente sobre a rejeição de seu coração, protestando contra a morte, identificando-a como “lazarenta e desdentada”, recusando-se a partir com ela para o sono eterno, preferindo até mesmo ir para o inferno.
Coração, por que tremes? Vejo a morte, Ali vem lazarenta e desdentada… Que noiva!… E devo então dormir com ela? Se ela ao menos dormisse mascarada! Que ruínas! que amor petrificado! Tão antediluviano e gigantesco! Ora, façam idéia que ternuras Terá essa lagarta posta ao fresco! Antes mil vezes que dormir com ela, Que dessa fúria o gozo, amor eterno Se ali não há também amor de velha Dêem-me as caldeiras do terceiro Inferno!
Demonstrando seu conhecimento literário, Álvares de Azevedo faz referência ao inferno criado por Dante Alighieri em Divina Comédia ao citar famosas personalidade femininas que estariam no inferno; Cleópatra, rainha do Egito e amante de Júlio César e Marco Antonio; Helena, da mitologia grega e romana, rainha de Esparta e esposa de Menelau, foi raptada por Páris e provocou a Guerra de Tróia; Eleonora d’Este, filha de Lucrécia Bórgia, freira e musa do poeta Torquato Tasso, sendo suspeita de ser sua amante. Esse tipo de referência é constante na obra do autor, que utiliza desses personagens para criar sua realidade ideal.
Há também na estrofe nove referência à vida boêmia regada a vinho, sendo essa a “visão orgiástica do inferno” analisada por Candido (1996, p. 163).
No inferno estão suavíssimas belezas, Cleópatras, Helenas, Eleonoras… Lá se namora em boa companhia, Não pode haver inferno com Senhoras! Se é verdade que os homens gozadores, Amigos de no vinho ter consolos, Foram com Satanás fazer colônia, Antes lá que do Céu sofrer os tolos!
Por fim, Álvares de Azevedo aceita a morte e pede, provavelmente ao leitor, já que utiliza o verbo “orar” conjugado na segunda pessoa do singular do modo imperativo, que “force” sua alma a ir para o céu, apesar de em vida não ter sido temente a Deus.
Ora! e forcem um’alma qual a minha, Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça, A cantar ladainha eternamente E por mil anos ajudar a missa!
A utilização “do cômico e do trágico na formação de uma linha dramática” (CANDIDO, 1996, p. 163) demonstra como o poeta do ultrarromântismo estava completamente voltado para si, escrevendo sobre questões pessoais ao invés de políticas. Álvares de Azevedo trata de um tema sombrio de maneira cômica, expressando a simplicidade com que encarava o assunto.
Referência bibliográfica
AZEVEDO, Álvares de. Lira dos 20 anos. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro. São Paulo: Ministério da Educação e Cultura, 1996. pág. 96 – 97. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000021.pdf>. Acesso em: 10 julho. 2019
CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 6. ed. Belo Horizonte. Editora Itatiaia Ltda, 2000.
GUIMARÃES, Maria Lúcia. Curso de Literatura Brasileira. UFRJ, 2019.
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