Além da reprodução


Texto escrito para a disciplina Diálogos com a escola-campos, em 2021.

Tamires Reis Chagas

Com a pandemia causada pelo vírus Covid-19 e a necessidade de adaptação da escola para o ambiente virtual em vista de promover o distanciamento social, nos deparamos com o reaquecimento de discussões comuns ao meio escolar, especialmente àquelas que se referem a mudanças na filosofia que orienta o professor em sala de aula.

Entre elas está a discussão sobre como avaliar o processo de aprendizagem escolar dos alunos, uma vez que o ambiente virtual impossibilita práticas comuns à sala de aula, como o monitoramento da turma para garantir que a concentração esteja no assunto exposto ou as comunicações paralelas durante a aplicação de exames individuais.

Porém, ao debatermos o assunto, voltamo-nos para um problema percebido ainda no presencial: notas classificatórias são o suficiente para avaliar a aprendizagem?

António Nóvoa (2020), ao discutir os efeitos deste momento pandêmico na educação, fala sobre renovação das práticas, que se propagarão para o pós-pandemia, culminando em uma renovação da escola. O mesmo ressalta, ainda, que as plataformas dos ambientes virtuais, tão utilizadas antes da pandemia para tornar a aula dinâmica e atrair a atenção dos alunos, não são a solução.

Já Edméa Santos (2021) propõe que a avaliação busque “rastros de aprendizagem”, de modo que a avaliação seja construída para identificar aquilo que é possível ser materializado, sendo essa uma abordagem também válida tanto para o ensino presencial quanto para o remoto. Assim, o que seria avaliado é o processo do ensino, e não uma possível absorção por parte do aluno. Outra proposta apresentada por Santos é a de se utilizar a observação e a conversação como instrumentos de avaliação, adotando-se uma perspectiva formativa. Nestes últimos casos, a aplicação no remoto apresenta complicações maiores, uma vez que o modelo é emergencial e, para garantir o atendimento a todos os alunos, independente das dificuldades tecnológicas, a presença em encontros virtuais síncronos não pode ser obrigatória. 

Partindo destas reflexões, é possível perceber que a avaliação, independente do modelo de ensino, não está apropriada para identificar se o objetivo das escolas vem sendo alcançado. Assim, quando Moreto (2005 apud Monteiro, 2020, p. 21) fala em “interiorização de conhecimentos”, uma avaliação que privilegie essa posição de que a autonomia do estudante faça parte do projeto da escola e que tal projeto se dê ao longo de toda a vida escolar, pois para um aluno que cresceu aprendendo que a escola e as avaliações eram apenas uma reprodução do que foi dito em sala, será muito mais difícil se adaptar a um modelo de avaliação que busque identificar a capacidade do aluno de refletir e relacionar os conteúdos.

Por fim, destaca-se a condição sensível que viver uma pandemia proporciona. A postura do IFF Campus Centro diante da morte quando as aulas eram presenciais, era a de decretar luto e suspender as atividades do dia. Hoje, que temos milhares de mortes por dia no Brasil por apenas uma única doença, a postura da instituição é a de aplicar avaliações semanais para cada disciplina. Ao que parece, o que está sendo avaliado é a capacidade dos alunos de continuarem produzindo mesmo no limite da exaustão mental.

Referências

MONTEIRO, Marcio de Oliveira. Avaliação em Tempos de Pandemia: uma abordagem holística do processo. Revista Transformar, v. 14, n. 2, p. 8-29, 2020.

CONVERSA com António Nóvoa – A educação em tempos de pandemia (Covid-19/Coronavírus). 08 abr. 2020. 1 vídeo (31min 44s). Disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=FNF7i_DpfIo&ab_channel=SindicatodosProfessoresMunicipaisNovoHamburgoAcesso em 30 jun. 2021.

UMA conversa sobre a avaliação da aprendizagem on-line. 31 mai. 2021. 1 vídeo (1h, 33min, 14s). Disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=nDeHLZmzgW0&t=4073s&ab_channel=Virg%C3%ADniaLouzadaAcesso em 30 jun. 2021.

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