Análise feita para a disciplina de Teoria da Literatura II, em 2018, durante a graduação.
Tamires Reis Chagas
A presente análise traz como corpus o poema épico De gestis Mendi de Saa, escrito por José de Anchieta como homenagem a Mem de Sá; governador que chefiou as batalhas contra franceses nas terras de colônia portuguesa. O objetivo geral deste trabalho é analisar os processos histórico-textuais presentes no referido poema, de modo a delinear as perspectivas dos jesuítas sobre os “Brasis”.
Nascido na Espanha, José de Anchieta veio para o Brasil em 1533, onde, junto com Manuel da Nóbrega, ajudou a fundar um colégio em Piratininga, dando origem ao que viria a ser a cidade de São Paulo. Além de obras de caráter pedagógico e evangelizador, Anchieta se dedicou aos poemas, em essência religiosos, escrevendo em português, castelhano, tupi e latim. De gestis Mendi de Saa narra os levantes chefiados pelo 3º Governador-Geral, Mem de Sá, para expulsar os franceses da Baía de Guanabara. Publicado em 1563, é considerado o primeiro poema épico da América, sendo anterior ao “Os Lusíadas” de Camões. (BOSI, 2015, p. 19 – 24)
Escrito em latim, o presente poema é iniciado por uma epístola dedicatória, sendo dividido em quatro cantos numerados e intitulados “livros”, possuindo, aproximadamente[2], três mil versos hexâmetros[3]. A epístola dedicatória atribui as conquistas de Mem de Sá a sua devoção cristã, citando em especial a submissão dos “Brasis”, e também aconselhando-o a se manter no caminho da fé.
O primeiro Livro inicia com a invocação pela inspiração, com auxílio de divindades cristãs. A proposição apresenta a situação do Brasil antes da chegada dos portugueses, sendo definida como “uma nação que dobrara a cabeça ao jugo do tirano infernal” (ANCHIETA, pág 6), e os portugueses os heróis enviados por Deus, com Mem de Sá como “singular herói”. É narrada a chegada de Mem de Sá ao Brasil, a batalha do rio Cricaré, no Espírito Santo, e a morte de seu filho, Fernão de Sá.
O Livro II narra o combate a indígenas e suas práticas antropofágicas, além da fundação de vilas e a conversão de índios ao cristianismo, tendo o Livro III foco também nos nativos, narrando a batalha de Paraguaçu. Já o Livro IV conta a queda do Forte Coligny, o que levou de fato a expulsão dos franceses da baía de Guanabara.
Passando para a análise, destacamos os seguintes trechos:
O que há pouco, cão feroz, roía ossos humanos,
sacia com o Pão dos Anjos o coração já manso. (ANCHIETA, p.2)
(…), mais audaz que o leão,
saciava o ávido ventre com carnes humanas. (ANCHIETA, p.6)
Resolve impor leis aos índios que vivem quais feras
e refrear seus bárbaros costumes. Logo desterra
a antropofagia cruel: não permite mais que movidos
de gula infrene bebam o sangue fraterno (ANCHIETA, p.23)
(…), que rompendo alianças
contra a lei natural, matam e espedaçam os homens,
à maneira de feras. (ANCHIETA, p.26)
Dizia-se que um braço fora cortado e roubado a um cadáver
dos muitos que aí prostrado deixara o inimigo.
Furtara-o talvez algum índio dos nossos, vencido
do antigo costume, para devorá-lo em segredo. (ANCHIETA, p.43)
Os trechos anteriormente expostos apresentam a perspectiva dos colonizadores em relação à antropofagia. Apesar de ser um ato ritualístico, logo, um aspecto cultural das sociedades que aqui existiam antes da vinda dos portugueses, esses tratavam a questão a partir do pensamento cristão católico. Assim, tal prática era considerada uma influência demoníaca em um povo que ainda não conhecia a religião cristã.
Jesus compadecido olhou-te das alturas celestes
e veio ele próprio a estender-te a mão. (ANCHIETA, p.2)
Então mandou-lhes um heróis das plagas do Norte,
um heróis que vingasse os crimes nefandos, (ANCHIETA, p.7)
(…) O Senhor tos dará generoso
e coroará teus trabalhos com honras celestes, (ANCHIETA, p.21)
Uma das características dos poemas épicos é a presença do herói, que é apresentado com uma personalidade quase divina ao exaltar o povo que representa. Aqui temos Mem de Sá representando seus soldados e o povo lusitano como exemplo de valentia, abençoado pelo deus cristão e sendo o herói que salva o povo indígena da, assim entendida, influência maligna do demônio cristão.
(…) com que terror fugirá a teus golpes
o inimigo fero, que tantos horrores e tantas ruínas
lançou nos cristãos, arrastado de furiosa loucura! (ANCHIETA, p.7)
Acende-se mais e mais a coragem do chefe
e seus bravos: derrubam a golpes mortais, muitos selvagens.
Ora decepam braços enfeitados com penas de pássaros,
ora abatem com a lâmina reluzente cabeças altivas,
faces e bocas pintadas de vermelho urucum, (ANCHIETA, p.13)
Mal ouviu a notícia, o Chefe, ferido no íntimo d’alma,
ergueu os olhos ao céu. Não se esqueceu que tudo sucede
por permissão divina; mas disse consigo estas palavras:
“Creio chegado o grande dia em que a bárbara tribo
receberá em morte o cruel castigo que pedem
tantos crimes cometidos, tanto sangue inocente vertido.” (ANCHIETA, p.40)
Quem poderá contar os gestos heróicos do Chefe
à frente dos soldados, na imensa mata! Cento e sessenta
as aldeias incendiadas, mil casas arruinadas
pela chama devoradora, assolados os campos,
com suas riquezas, passado tudo a fio da espada! (ANCHIETA, p.44)
Com a ajuda divina, em vão as balas cortam os ares:
antes, a pólvora explode no paiol inimigo
a um centelha, e o fogo em turbilhão num momento
envolve e engole desprevenidos a sete soldados.
Infelizes! começam já a sentir as chamas do inferno
em que os ímpios corações, manchados pela heresia,
sofrerão o eterno castigo que seus crimes merecem. (ANCHIETA, p.53)
Entram finalmente nas casas desertas. Dentro se achava
número enorme de munições, cuja força não pode
segurar os Franceses. Mas não se encontrava ali a imagem
da cruz resplendente, nem a dos santos que habita,
o reino dos céus, por cujos merecimentos e preces
o Rei supremo se inclina ao perdão e abranda piedoso
a cólera justa e santa, protege os reinos terrestres
e enche de dons abundantes as almas humanas. (ANCHIETA, p.63)
Assim ruiu o forte francês desde as cimeiras, e o fogo
num momento reduziu a cinzas esses muros altivos.
Foi Deus quem domou essas iras sem freio, foi ele
que lhes esmagou a soberba: Cristo, sim Cristo
que rege os destinos humanos, (…) (ANCHIETA, p.64)
A narrativa apresentada no poema trata de batalhas violentas, tanto por parte dos portugueses quanto por parte dos seus “inimigos”, sejam eles os franceses ou os índios. Entretanto, Anchieta traz uma justificativa a violência e posterior conquista; a fé. Seria a fé possuída pelos portugueses o que justificaria seus atos, e a vitória uma prova de que seu deus os protegia.
O que dantes, furioso, semeava ruínas e guerras,
aprecia os fatores de redentora paz.
O que dantes vivia escondido em sombrias florestas
aos templos do Senhor, já pressuroso corre. (ANCHIETA, p.2)
(…) uma nação que dobrara a cabeça
ao jugo do tirano infernal, (…) (ANCHIETA, p.6)
Que espetáculo de sujidões, que visão de torpezas!
Que obsceno os gestos dos homens, que impudicos meneios
os das mulheres que oferecem as lascivas bebidas! (ANCHIETA, p.27)
Já não enganarás com tuas artes os pobres enfermos,
que muito creram, coitados! nas mentiras do inferno. (ANCHIETA, p.27)
Ao chegar ao Brasil, os colonizadores se depararam com uma realidade muito diferente da sua, onde as práticas que eram condenáveis e mal vistas na sociedade portuguesa, aqui possuíam caráter religioso. No primeiro trecho apresentado, Anchieta caracteriza os indígenas como um povo selvagem que guerreia por prazer, o que se opõe a toda a história narrada por ele no presente poema, onde os portugueses entram em combate em “nome do Rei” e com a “benção Divina”.
Em seguida, temos exemplos da demonização do indígena por ter costumes opostos aos considerados ideais pelos portugueses, como o consumo de bebidas alcoólicas, as “lascivas bebidas” citadas por Anchieta, e também as práticas medicinais, que envolviam o uso de substâncias desconhecidas pelos portugueses.
No céu te espera um trono, grande Mem; para aí te convidam
os fulgurantes templos do firmamento azul. (ANCHIETA, p.4)
Só a Cristo Jesus, eterna vida, se cantam louvores:
as bandeiras fulgurantes do augusto Rei se desfraldam
e a obra da cruz rebrilha imortal. Rei é Cristo
e seu império se estende na terra, nas ondas do espaço,
e de direito inalienável reclama para si as plagas brasílicas.
Que teu nome e teu preço e tua glória inefável
se espalhe pelo mundo inteiro, ó Cristo, honra dos céus,
e a plaga austral ecoe eternamente, Jesus, o teu nome! (ANCHIETA, p.31)
Como comentado anteriormente, os portugueses acreditavam estar sob uma proteção divina que justificaria seus atos. Tal pensamento se assemelha ao usado pelas Cruzadas medievais, que alegavam seus atos na propagação da fé cristã. Além disso, muitos dos participantes encaravam tal peregrinação como uma forma de penitência ou pagamento de uma promessa. Assim era também para os portugueses, como apresenta Anchieta no poema; se suas atitudes fossem de valentia e pautadas na fé, o céu seria sua recompensa.
(…) jogado
na imundície horrível de um cárcere escuro,
pagando o merecido castigo de seus crimes antigos. (ANCHIETA, p.22)
Arrebatados de ardor, os peitos selvagens suspiram
pelos belos riscos da guerra. (ANCHIETA, p.41)
E que direi dos Jesuítas e dos ministros sagrados?
Dia e noite, com fervor sua mente e seus lábios se voltam
ao Pai celeste, ao Filho divino e ao Espírito Santo
a se atribui igual felicidade,
igual poder e igual glória nas moradas eternas.
Pedem-lhe que os auxilie e dê aos nossos guerreiros
a mais gloriosa vitória e o mais estrondoso triunfo.
Foram eles, estou certo, que com seus gemidos e queixas
comoveram os céus e lhes abriram as portas da graça;
eles que, dardejando do peito ardente setas de fogo,
moveram o Pai eterno a prostrar o inimigo,
incutir-lhe terror e afugentá-lo para longe do forte. (ANCHIETA, p.55)
Apesar da visão de que os Jesuítas, por serem homens de fé com o objetivo da catequização, foram amáveis e gentis com os índios, os trechos apresentados revelam uma visão autoral de Anchieta onde esse deixa claro que se entusiasma com a violência. Ao longo de todo o texto são descritas mortes; algumas são comemoradas e apenas a de Fernão de Sá é lamentada, mas sem deixar de destacar o caráter heroico de tal morte.
(…) Que uivos horrendos ecoaram nos antros
da habitação sombria. Em estertores insanos tremeram
o caos da morte e o Flegetonte que arrota
chamas devoradoras, e as águas estagnadas da Estige,
as ondas do Aqueronte e Cérbero enorme que aterra,
com o latir das três fauces, os reinos da treva. (ANCHIETA, p.28)
(…), e numerosas aldeias junto às áridas praias,
e outras muitas sitas ao ocidente, pouso do Zéfiro,
construídas ora nos campo, ora em meio de densas florestas. (ANCHIETA, p.52)
Outra característica dos poemas épicos é a invocação de divindades para que essas tragam a inspiração ao poeta e o auxiliem na criação. Por ser um gênero que surgiu na Grécia, os deuses exaltados eram os daquela cultura. Entretanto, Anchieta no início de sua narração roga às divindades cristãs para tal, acabando por retornar a característica original das epopeias nos trechos destacados, onde apresenta o inferno pela perspectiva da mitologia grega e se refere ao vento pelo deus que o representava na mesma mitologia.
Mais ainda: com o coração infeccionado pela heresia,
e com a mente opressa pelas trevas do erro,
não só todos se afastam do reto caminho da crença,
mas procuram perverter, assim dizem, com falsas doutrinas
os míseros povos índios, de todo ignorantes. (ANCHIETA, p.52)
Encontrava-se aí um grande móvel, cheio de livros
que encerram doutrinas crivadas de impiedades e erros.
Martim Lutero os compôs com mente perversa
e mandou a seus filhos observá-los à risca. (ANCHIETA, p.63)
Além das motivações financeiras e territoriais para expulsar os franceses, a religião era outro motivo pelo qual esse povo era odiado pelos portugueses. Por volta de 1555, a França vivia dias de tensão entre católicos e protestantes. Esses protestantes franceses eram conhecidos como huguenotes e, por serem perseguidos em seu país, buscaram refúgio no Brasil, montando sua base num ponto ainda não povoado pelos portugueses: a Baía de Guanabara. Ao relatar tais fatos em seu poema, Anchieta mais uma vez recorre às justificativas religiosas para explicar as atitudes dos portugueses.
Referência bibliográfica
ANCHIETA, José de. Feitos de Mem de Sá. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro. São Paulo: Ministério da Educação e Cultura, 1970. Disponível em: <https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=38848>. Acesso em: 17 fev. 2019
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 50.ed. São Paulo: Cultrix, 2015.
POSSEBON, Fabricio. O épico De Gestis Mendi de Saa (A Saga de Mem de Sá) de José de Anchieta. João Pessoa, 2007. Tese de Doutoramento. Programa de Pós-Graduação em Letras, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal da Paraíba. Disponível em: http://www.cchla.ufpb.br/ppgl/wp-content/uploads/2012/11/images_Possebon.pdf. Acesso em: 03 mar. 2019.
[2] Houve acréscimos à tradução, apresentadas em itálico na fonte consultada.
[3] É utilizado o dístico elegíaco na epístola dedicatória (POSSEBON, 2007, pág 6).