Não é a titia

Texto escrito durante a graduação. Sem registros de data e disciplina.

Como um personagem folclórico, a visão de professor que povoa o imaginário popular é a do ser bondoso, algo entre mãe e santo, que trabalha por vocação e acredita com toda sua convicção de que é capaz de mudar e salvar o mundo. Não apenas seus alunos ou sua escola, mas o mundo.

Essa visão se aproxima muito mais dos jesuítas, primeiros professores de língua portuguesa a atuarem no Brasil, do que dos profissionais que formamos atualmente. De fato, os jesuítas, com sua missão de evangelizar, que não se restringia ao território que veio a se tornar o Brasil, esperavam mudar e salvar os novos fiéis, não apenas com o trabalho de evangelização e ensino, mas com o posicionamento contra a escravidão indígena.

Já no século XIX, com a vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil e a consequente implantação da Impressão Régia no Rio de Janeiro, os professores de língua assumem outros papéis, como de jornalistas, mas também de autores, especialmente de gramáticas. Assim, seu prestígio era voltado ao fato de ser um profissional das letras, e não a uma área de atuação única.

Foi apenas a partir da década de 1950, com a diversificação da população que tinha acesso à educação, que a profissão docente começou a ganhar os contornos com os quais a enxergamos hoje. Com o maior número de alunos, também foi preciso aumentar o número de professores, resultando em um recrutamento menos seletivo e rebaixamento salarial.

Outros fatores, possivelmente mais óbvios, como a associação da profissão ao gênero feminino, também estão presentes na idealização anteriormente comentada. Porém, com esse revisionismo histórico, torna-se claro quão mutável é a profissão e acende-se a esperança pela mudança. Além da busca por melhores condições de trabalho, que também reforça a visão de mártir vocacional, luta-se pelo reconhecimento enquanto profissional que escolheu não uma vida de restrições, mas uma carreira.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *