Visando o cheque

Texto escrito para a disciplina de Sintaxe II, em 2021. O objetivo era trazer uma narrativa que explorasse os diferentes significados e transitividades do verbo “visar”.

– Ainda acho que você está cometendo um erro…

O comentário cheio de censura veio acompanhado do arrastar da colher no fundo da xícara seguido do som de sucção quando essa foi levada a seus lábios. A mesma velha Berta indiscreta de sempre.

Não era nenhum segredo em nosso círculo social o quanto a Berta era fuxiqueira e leva-e-traz, assim como não era segredo o motivo dessas visitas semanais para tomar chá. Desde que saíra o anúncio do casamento, suas tentativas de flerte se tornaram uma campanha contra o relacionamento, com todas as acusações de golpe do baú que os outros guardavam para sussurrarem quando eu virasse as costas sendo feitas na minha cara.

– Não se preocupe, está tudo certo – garanti. – Na verdade, Aline visou um cheque hoje de manhã que irá cobrir todas as despesas do casamento.

– Ah, err, bom… – Berta se mostrou mais desconcertada com a informação do que eu esperava. É claro que a minha intenção ao revelar que a noiva estava arcando com a festa era encerrar a fofoca, mas, pela primeira vez, senti sinceridade em seu olhar aflito. – Ah, meu velho Antenor, se você é capaz de me revelar que ela está cobiçando seus bens debaixo de suas barbas assim com tanta tranquilidade, não há nada que eu, os advogados ou a polícia possamos fazer!

– Mas não foi isso que eu disse – foi a minha vez de ficar desconcertado.

– Como não! Acabou de me dizer que ela estava visando o cheque que pagará a festa de vocês! – rebateu Berta.

Me permiti uma gargalhada, apesar de meus pulmões já não suportarem tão bem tamanha demanda por ar.

– Ah, minha cara Berta… Visando o cheque, não visando ao cheque! Há uma enorme diferença semântica na presença da preposição – suspirei tentando retomar o folego. – Talvez se você tivesse gasto mais tempo prestando atenção nas aulas ao invés de se meter na vida de toda a escola…

– Bom, você deve me desculpar, mas depois de cinquenta anos a memória começa a falhar em algumas coisas…

– Claro, claro… – continuei-me rindo. – É por isso que você não se lembra mais que eu convidei a Florinda para o baile de formatura ao invés de você…

Eu nunca me enxergara como a pessoa que seria capaz de silenciar Berta Língua-de-fogo Jorkins, mas aqui estava eu, rindo de me acabar, e lá estava Berta, com os lábios comprimidos de desgosto me lançando um olhar azedo que só aumentava a graça da situação.

(Tanto no sentido de apontar quanto de dar visto, “visar” é um verbo transitivo direto. Já no sentido de almejar ou pretender, será um verbo transitivo indireto com a preposição “a”.)

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