Fichamento de Verbos

Fichamento para a disciplina de Sintaxe I, escrito por volta de 2021.

O que é verbo?

Para Bechara – palavra que se caracteriza por ser um modelo no qual a fala organiza seu significado dicionarizado. É o centro do enunciado, da nossa fala, sendo assim o núcleo da oração.

Para Cegalla

  • Semântica: palavra que exprime ação, estado, fato ou fenômeno;
  • Sintático: palavra indispensável na organização do período;
  • Morfológico: palavra que mais sofre flexões, as quais chamamos de conjugações. Essas flexões podem ser de pessoa, número, tempo, modo ou voz.

Para Rocha Lima – expressa o que se passa com os seres ou ao redor deles. Parte da oração mais rica em variações ou acidentes gramaticais. Esses acidentes levam o verbo a mudar de forma para exprimir 5 ideias: pessoa, número, tempo, modo ou voz.

Para José Carlos Azeredo

  • Morfossintático: vocábulos que expressam tempo,aspecto, modo, número e pessoa, sendo a de tempo a mais marcante em razão de suas formas e noções cronológicas de presente, passado e futuro.

Para Celso Cunha 

  • Morfossemântico: palavra variável que expressa um acontecimento representado no tempo;
  • Sintático: não possui uma função sintática particular, já que o substantivo e o adjetivo também podem ser núcleo do predicado. Mas tem função obrigatória de predicado, ou seja, o predicado sempre é com ele.

Para Cereja

  • Semântico: os verbos exprimem ação, estado, mudança de estado e fenômenos meteorológicos, sempre associados a um momento no tempo.

Para Antônio Suárez Abreu – define a estrutura de uma oração, sendo responsável por exigir complementos, ou seja, os argumentos verbais, e veicula flexionalmente a categoria de tempo.

Para Maria Helena de Moura Neves – geralmente constituem o predicado da oração, designando as relações que se formam com os elementos do enunciado. Ou seja, o verbo é quem define a função sintática dos demais elementos da frase.

Para Marcos Bagno

  • Morfossintático: palavra constituída de radical e sufixo, podendo esses sufixos indicar modo, tempo, número, pessoa;
  • Semântico: expressa o estado das coisas.

Para Castilho

  • Morfológico: vocábulo prefixal + radical + morfemas flexionais sufixais;
  • Semântico: o verbo expressa o estado das coisas, as ações. Exerce função obrigatória de predicado;
  • Discurso: palavra que introduz ou qualifica os participantes (ou seja, os demais termos da oração) do texto. Constitui os gêneros discursivos, alternando tempo e modo.

Para Sautchuk

  • Morfológico: somente os verbos admitem as desinências próprias de número, pessoa, tempo e modo. A classe de palavras está vinculada a um pronome do caso reto. Também é um tipo de palavra que não aceita determinantes (artigo, numeral, alguns pronomes) ou a palavra tão ou o sufixo -mente. É a classe de palavras que mais facilmente se ajusta a uma definição morfossintática.

Conceitos sintáticos – comportamento na oração, construção da frase

  • Flexão de voz (Maria Helena)
  • Núcleo da oração (Bechara)
  • Exige complementos ou argumentos (Suárez Abreu)
  • Função obrigatória de predicado (Castilho)
  • Não aceita a maioria dos determinantes (Sautchuk)

Conceitos semânticos – ideia, significado

  • Exprime ação, estado, fato ou fenômeno (Cegalla, Cereja)
  • Acontecimento representado no tempo (Celso Cunha)
  • Introduz ou qualifica os participantes do discurso (Castilho)

Conceitos morfológicos – forma, estrutura, formação e classificação das palavras

  • Sofre flexões (Cegalla) ou acidentes gramaticais (Rocha Lima)
  • Possui morfemas flexionais sufixais (Castilho)
  • Admitem desinências de número, pessoa, tempo e modo (Sautchuk)

Conclusão: morfologicamente, é a classe de palavras que mais sofre flexões, ou seja, é a que mais tem variações, podendo suas desinências indicar número (singular ou plural), pessoa (do discurso), tempo (presente, passado e futuro) e modo (indicativo, subjuntivo, imperativo).

semanticamente, o verbo pode expressar a ideia de ação, estado (exemplo: ser, ir, estar, ficar), fato ou fenômeno em diferentes momentos no tempo ao apresentar uma das pessoas do discurso.

Sintaticamente, é o núcleo da oração e sempre exerce a função de predicado. O verbo é o termo que exige ou não complementos e será em relação a ele que os demais termos serão classificados, sendo preciso atenção especial quando há flexão de voz.

Resumindo: o verbo é a classe de palavras que sofre flexões de voz, número, pessoa, tempo e modo, expressando a ideia de ação, estado, fato ou fenômeno e sempre será o núcleo da oração, exercendo a função de predicado.

Características do verbo

Pessoa e número

A flexão de pessoa e número sofrida pelo verbo é apresentada por Bechara como as 3 pessoas do discurso e os números são o singular e o plural. Em relação às pessoas, Cunha e Cintra detalham apresentando os pronomes pessoais do caso reto e fazendo a seguinte distinção:

  • 1ª pessoa se refere a que fala;
  • 2ª pessoa se refere a quem se fala;
  • 3ª pessoa se refere de quem se fala.

Assim, as flexões de pessoa e número se organizam conforme a tabela abaixo.

 SingularPlural
1ª pessoaEuNós
2ª pessoaTuVós
3ª pessoaEleEles

Tempo

É definido por Cunha e Cintra como a indicação do momento em que se dá o fato expresso pelo verbo. Já Cegalla define como a maneira de situar o fato ou a ação em um determinado momento.

Cegalla expõe ainda sobre os tempos simples e tempos compostos, que virão nas respectivas formas exceto na voz passiva, onde ambos os tempos apresentam formas compostas.

Os tempos são divididos e definidos por Bechara da seguinte forma:

  • Tempo presente: são os fatos que se passam ou se estendem ao momento em que falamos;
  • Tempo pretérito: fatos anteriores ao momento da fala. Subdividem-se em “imperfeito”, “perfeito” e “mais-que-perfeito”;
  • Tempo futuro: fatos ainda não realizados, subdividido em “do presente”, nomenclatura com a qual Cegalla não concorda, e “do pretérito”.

Detalhamos por uma perspectiva semântica que o pretérito perfeito se caracteriza por apresentar um fato passado já concluído (ex: ele trancou a porta), enquanto o pretérito imperfeito se refere a um passado não concluído ou que ainda está acontecendo (ex: ele trancava a porta) e o pretérito mais-que-perfeito a um acontecimento anterior a outro (ex: ele trancara a porta).

Já em relação ao futuro, o do presente apresenta uma possibilidade de acontecer (ex: ela ganhará o prêmio), e o do pretérito, um fato que não acontecerá mais (ex: ela ganharia o prêmio).

Modo

Para Cunha e Cintra, indica a atitude da pessoa que fala em relação ao fato que enuncia. Para Cegalla, indica as diferentes maneiras como um fato se realiza. Dessa forma, podemos dizer que o modo expressa a atitude do falante.

Por ter Cegalla uma linguagem mais simples, as definições de cada modo apresentadas por Bechara serão divididas com ele.

  • Modo indicativo: fatos verossímeis ou tidos como tais, ou seja, fatos certos. Exemplo: eles saíram apresados;
  • Modo subjuntivo: também denominado como “conjuntivo” por Bechara, são os fatos incertos, ou seja, duvidosos, hipotéticos. Exemplo: se eu comprasse o livro, estudaria só por ele;
  • Modo imperativo: ato que se exige do agente, ou seja, ordem, proibição, conselho, pedido. Exemplo: faça o almoço.

Os próximos modos são apresentados apenas por Bechara.

  • Modo condicional: fatos dependentes de certa condição;
  • Modo optativo: ação desejada pelo agente.

Voz

A voz ativa é definida por Bechara como a que normalmente indica que a pessoa a que se refere é o agente da ação, ou seja, pela definição de Cegalla, o sujeito é agente.

A voz passiva, para Bechara, indica que a pessoa é o objeto da ação, ou seja, o sujeito sofre a ação, sendo, então, sujeito paciente. É formada por um dos verbos ser/estar/ficar seguido de particípio.

Cegalla complementa que, na voz passiva, todos os tempos são compostos, além de que apenas verbos transitivos podem ser usados na voz passiva. O autor apresenta duas estruturas possíveis para essa voz; a passiva analítica, com verbo auxiliar temporal seguindo do particípio do verbo principal; e a passiva pronominal, ou sintética, formada por verbo na 3ª pessoa, em qualquer número, e pronome átono “se”, que funcionará como partícula apassivadora.

Cunha e Cintra complementam que, na voz passiva, o verbo principal concorda em gênero e número com o sujeito.

A voz reflexiva ocorre quando a ação verbal não passa a outro ser, podendo reverter-se ao agente (me visto, te feriste) ou atuar reciprocamente (eles se amam) ou indicar movimento do próprio corpo ou mudança psicológica (sentou-se, zangou-se) ou passividade com “se” (alugam-se) ou impessoalidade (assistiu-se), segundo Bechara.

Destacamos que a passividade a qual Bechara se refere na voz reflexiva é apresentada por Cegalla na voz passiva, explicação com a qual trabalharemos.

Para a voz reflexiva, Cunha e Cintra trazem a definição de ação pratica ou sofrida ou praticada e sofrida pelo sujeito. Cegalla acrescenta que a foz reflexiva é conjugada com os pronomes reflexivos me, te, se, nos, vos, se quando se pode acrescentar mesmo. Exemplo: a mim mesmo.

Formas nominais

São as flexões que, segundo Bechara, podem desempenhar funções de nomes. Com exceção do infinitivo, as formas nominais não definem as pessoas do discurso, sendo conhecidas por formas infinitas. Cegalla complementa que as formas nominais enunciam um fato de maneira vaga, imprecisa, impessoal.

São três as formas nominais apresentadas por Bechara:

  • Infinitivo: desempenha a função de substantivo. Possui forma infinita e outra flexionada, a qual Cegalla nomeia como pessoal e impessoal, podendo ser a forma pessoal flexionada ou não flexionada. Desinência -R;
  • Particípio: desempenha a função de adjetivo. Desinência -DO;
  • Gerúndio: desempenha a função de advérbio ou adjetivo. Desinência -NDO;

As conjugações

São as categorias do verbo de acordo com a sua terminação no infinitivo, sendo caracterizada pela vogal temática: a, e e i.

Assim, verbos como cantar, falar, dançar, são de 1ª conjugação, enquanto saber e dizer são de 2ª conjugação e partir, pedir e conferir são de 3ª conjugação.

Modelo de conjugação

Os verbos são divididos regulares, irregulares, anômalos, defectivos e abundantes dependendo de como se dá sua conjugação, como apresentaremos pela posição de Bechara.

Assim, os verbos regulares se apresentam de acordo com o modelo de conjugação, sem sofrer variações em seu radical.

Já os irregulares sofrem modificações no radical ou na flexão. Bechara ainda os divide em fracos, que são os verbos que não sofrem modificação no radical do infinitivo quando conjugado no pretérito (ex: perder/perdi), e fortes, que são os que sofrem modificação nesse caso (ex: caber/coube).

Como parte dos irregulares, temos os verbos anômalos, que sofrem modificações no radical primário, como é o caso dos verbos ser e ir. Alguns autores consideram outros verbos como anômalos, como é o caso do verbo pôr pela perspectiva de Cegalla.

Os verbos defectivos não apresentam conjugação completa em certos tempos, modos ou pessoas. Bechara justifica essa peculiaridade como resultado da conjugação mista em latim, da eufonia e da significação. Cunha e Cintra destacam que alguns gramáticos incluem na classe dos defectivos os verbos unipessoais, em especial os impessoais, que são usados apenas da 3ª pessoa do singular, como chover e ventar.

Por fim, os verbos abundantes apresentam duas ou mais formas válidas para uma mesma classe de flexão. Normalmente essas formas ocorrem no particípio. Como verbos que apresentam formas válidas em outras flexões além do particípio, destacamos comprazer, construir, entupir, haver, ir, querer, valer juntamente aos seus derivados por acréscimo de sufixos, além dos verbos terminados em -zer ou -zir no imperativo.

Locuções verbais

Locução verbal ou conjugação perifrástica, como Cegalla denomina, é definida por Bechara como a combinação de um verbo auxiliar com um verbo principal em uma das formas nominais. O autor destaca, ainda, que no infinitivo o verbo principal pode vir precedido de preposição.

A combinação feita na locução verbal leva o verbo auxiliar a emprestar uma nova e sutil significação ao verbo principal, o qual é chamado de aspectos do verbo.

Sendo o verbo auxiliar quem sofre as flexões, Cegalla expõe que o auxiliar se junta à forma nominal de outro verbo para constituir a voz passiva, os tempos compostos e as locuções verbais. Cunha e Cintra acrescentam que essa combinação se deve ao fato de o verbo auxiliar não possuir sentido próprio.

Cunha e Cintra apontam como função do verbo principal ter significação plena e ser o núcleo da oração.

O tempo composto é um tipo de locução verbal eocorre, segundo Bechara, quando os verbos ter/haver/ser se combinam com o particípio de outro verbo e formam um novo tempo verbal, sendo nove as formas compostas. Cegalla acrescenta que o uso de ter/haver como auxiliar formará voz ativa, enquanto a combinação de ter/haver/ser formará voz passiva.

Desinências

Apresentadas por Bechara como as formas que constituem as flexões indicadoras de pessoa e número, modo e tempo. Nem sempre ambas as desinências aparecerão.

A estrutura do verbo é formada, ainda, por radical acrescido de vogal temática, formando o tema, que será quem recebe as desinências.

Aspecto do verbo

Cunha e Cintra o definem como uma categoria gramatical que manifesta o ponto de vista do qual o locutor considera a ação expressa pelo verbo, enquanto Bechara aponta como sendo a ação levada até o fim. As categorias tempo e aspecto costumam aparecer juntas tanto na forma simples quanto na perifrástica, como locução verbal.

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