Fichamento “Narcisa Amália, vida e poesia”, por João Oscar

Fichamento do livro, feito em 2021 para a escrita do meu TCC.

OSCAR, João. Narcisa Amália, vida e poesia. Gráfica e Editora Lar Cristão, Campos dos Goytacazes, 1994.

Parte I – Biografia de Narcisa Amália

CONVERSA EM TORNO DE UMA VISITA IMPERIAL

P. 17

Visita de D. Pedro II em 8 de abril de 1847. As principais atividades econômicas eram plantação de cana-de-açúcar em Campos, café em São Fidélis, madeira-de-lei e outros produtos agrícolas de São João da Barra. Os navios eram construídos em SJB, que também funcionava como porto para o tráfico negreiro.

P. 18

Major Joaquim Jácome de Oliveira Campos, comandante local da Guarda Nacional, participou do beija-mão a D. Pedro II com o filho Joaquim Jácome de Oliveira Campos Filho. São respectivamente avô e pai de Narcisa Amália.

P. 19

O avô era de “formação liberal, abolicionista e republicano de primeira hora” e Narcisa Amália reconhece a influência do avô. Morreu em 20 de maio de 1872. O pai, o professor Jácome de Campos, “colaborou em diversos jornais (…), com artigos, crônicas, poemas e um romance de folhetim (…). Foi um dos fundadores e principais redatores do primeiro jornal editado em SJB: O Parahybano”. Sua mãe foi Narcisa Ignácia Pereira de Mendonça e também era professora.

P. 20

Os pais “viviam modestamente”, mas contribuíram muito com a educação em SJB.   

NASCE A ESTRELA

P. 21

Três anos após a visita de Dom Pedro II, “a vila de SJB foi elevada à categoria de cidade”, levando à “mudança de situação político-administrativa”. A Lei Eusébio de Queirós, de 1850, que proibia o tráfico intercontinental de negros escravizados, acabou beneficiando a região de SJB, que serviu como porto clandestino. Em 1852, por conta do desenvolvimento da região, foi construído num estaleiro de Campos o primeiro navio a vapor da região. Foi nesse cenário de prosperidade econômica que Narcisa Amália nasceu em 3 de abril de 1852.    

P. 23

Aos quatro anos Narcisa Amália já demonstrava “precoce aptidão para buscar conhecimento” e ganhou dos pais sua primeira cartilha de alfabetização. Aos seis anos já sabia ler e entrou para o colégio. Estudou latim e francês com um padre-mestre. Em 1863 a família de Narcisa Amália se mudou para Resende por causa de uma doença do pai, sendo a mudança de clima o tratamento recomendado.

NAS VASTIDÕES DO ITATIAIA

P. 25

À época, Resende era o epicentro do ciclo do café e vivia uma “ebulição econômico-social” quando a família de Narcisa Amália chegou.

P. 26

Continuou os estudos na escola pública local e depois no Atheneu Resendense. Seus pais ganharam destaque na comunidade de Resende participando de caridades, colaborações com o jornal local e a fundação de dois educandários no regime de internato.

P. 27

No internato da mãe, Narcisa Amália deu seus primeiros passos no magistério. No final de 1865, aos 13 anos, se envolveu em um romance com “um jovem inconsequente e irresponsável” que acabou gerando um escândalo e forçando os pais a permitir o casamento dos dois.   

O CASAMENTO DESASTROSO

P. 28

Casou em 1866 com o filho de uma das famílias ricas da cidade, João Batista da Silveira, então com 18 anos. Narcisa Amália continuou auxiliando no internato e estudando, enquanto o marido vivia de maneira irresponsável. O casamento durou pouco mais de quatro anos.

P 29

Pela personalidade esbanjadora do marido, chegaram os dois à falência. O pai de Narcisa Amália os convidou para morar na sua casa, mas o genro não aceitou, indo embora de Resende e abandonando Narcisa Amália. Morreu em 1876    

A FÊNIX RESSURGIU DAS CINZAS

P. 30

A dor da separação foi o principal motivo para Narcisa Amália escrever poesias, apesar de o fazer desde sempre. Em 28 de janeiro de 1870 publicou seu primeiro poema no jornal O Parahybano.

P. 31

“Nessa fase de estreia, (…) esmerar-se-ia Narcisa Amália numa atividade pouco comum no País: traduzir contos e ensaios de autores franceses.” As traduções eram publicadas em jornais, principalmente no Pirilampo, que Narcisa Amália passou a redigir sozinha sob o pseudônimo de Narandiba, passando a ser considerada “a primeira mulher a militar na imprensa” – afirmações de Artur de Almeida Torres, Marcello e Cybelle de Ipanema.

Em agosto de 1870 publicou em folhetim no Astro Resendense a tradução do livro Os Climas Antigos, de Gaston de Saporta. O sucesso o fez ser publicado em outros jornais e também compilado na forma de livro. Foi o primeiro livro a ter o nome de Narcisa Amália.

P. 32

Os trabalhos aumentaram e do Astro Resendense seguiam para outros jornais, tanto grandes quanto pequenos. Recebeu elogios de Eliseu G. da Silva por esse trabalho.

“(…) a primeira mulher-escritora brasileira a conquistar espaço no fechadíssimo cenário literário do País.”

Elogios de Luís Guimarães Junior ao trabalho de tradução e sua aparência.

P. 33

Publicou poemas em diversos jornais do Rio de Janeiro e estados fronteiriços, tendo Oscar encontrado registros que vão de 1870 a 1872.

Nessa época se tornou colaboradora do A República escrevendo sobre a abolição da escravatura e a república, provavelmente por influência do pai.    

O AMIGO EZEQUIEL

P. 34

Ezequiel Freire, dois anos mais velho que Narcisa Amália, se aproximou dela em 1871 ao apresentar seus versos e pedir uma avaliação. Há suspeitas de que a relação não fosse apenas de amizade por conta dos versos de Ezequiel.

P. 35

Oscar acredita que não houve envolvimento de Narcisa Amália com Ezequiel por ela ainda ser apaixonada pelo marido que a abandonou. Mas foi ele, juntou ao pai de Narcisa Amália, que incentivou a autora a publicar seu primeiro livro.

O LIVRO DE ESTREIA

P. 36

O pai de Narcisa Amália a ajudou a fazer a seleção dos poemas que comporiam o livro, alguns já publicados em jornais tanto do Brasil quanto de Portugal.

“(…), decidiu ela que o livro, (…), seria dividido em três partes e conteria um total de quarenta e duas poesias, entremeadas entre as de exaltação patriótica, as de expressão do seu mais puro sentimentalismo e as de sublimação da natureza. Seu título expressaria o típico ideal da escola romântica em que ela pontificava – NEBULOSAS.”

O prefácio foi feito por Pessanha Póvoa, de São João da Barra, a convite do pai de Narcisa Amália. Nesse prefácio, Póvoa afirma que Narcisa Amália “é a primeira poetisa desta nação”.

P. 37

Na capa do livro, abaixo do título e de seu nome, havia os dizeres “natural de S. João da Barra”, uma exigência da autora.

Buscou na então capital do Império, o Rio de Janeiro, uma editora disposta a publicar seu livro, conseguindo a mais famosa da época, a Editora B. L. Garnier, que também patrocinou os gastos da impressão. Na ocasião, conheceu Carlos Gomes e Pedro Américo.

P. 38

O livro foi lançado no final de 1872, quando Narcisa Amália tinha vinte anos.

A EXPLOSÃO DAS NEBULOSAS

P. 39

O livro foi um sucesso em seu lançamento, sendo comentado em todos os jornais do país. Carlos Ferreira foi um dos primeiros a elogiar e criticar – não concordava que uma mulher se posicionasse politicamente.

P. 40

“Com este livro a exma. Sra. D. Narcisa Amália exalça as letras pátrias e vence gentilmente as suas predecessoras – nos jogos olímpicos da poesia…”: publicação em jornal assinada apenas como Sylvio.

Recebeu elogios também de Teixeira de Melo e seu amigo Ezequiel Freire, e da revista Novo Mundo e do jornal paulista Pindamonhangabense.

P. 41

Em Portugal, no ano de 1873, recebeu elogios da escritora Guiomar Torrezão, do crítico literário Luciano Cordeiro, do poeta Teófilo Guimarães e do jornalista Julio Cesar.

Já no Brasil, recebeu elogios do poeta Luiz F. Pinheiro Junior e do jornal Kaleidoscópio.

P. 42

Sílvio Romero, maior crítico literário da época, elogiou Narcisa Amália no jornal República, mas também a acusou de “choramingar nos moldes da poesia romântica de Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo e Castro Alves”.

Luís Guimarães Junior a defendeu das críticas por “sua militância político-republicana”.

Também recebeu elogios do poeta Damasceno Vieira.

A FESTA CONSAGRADORA

P. 43

Empolgados com a projeção que Narcisa Amália dava às cidades, os cidadãos de Resende e São João da Barra prepararam homenagens. Os sanjoanenses a deram uma lira de ouro e os resendenses uma pena de ouro e uma coroa de louros. A maioria das pessoas que participaram no custeio desses presentes vivia na capital.

P. 44

Em 2 de março de 1873 houve uma festa em Resende.

P. 45

Na festa, Narcisa Amália pediu que aos presentes ajudassem financeiramente um homem doente e que as amigas levassem alguns doces da festa para os “presos na Cadeia Pública, instalada no térreo do prédio onde se realizava a festa.”

Homenagem da Maçonaria e de José do Patrocínio

P. 46

Recebeu homenagem da Maçonaria por ser abolicionista, assim como parte da instituição, e mulher, de modo a servir como propaganda sobre os ideais da Abolição e da República a outras mulheres. Saldanha Marinho entregou o prêmio.

Em 11 de novembro de 1874, a sociedade cultural Recreio Literário a presenteou com um álbum com um poema escrito por José do Patrocínio a ela.  

VISITA DE FAGUNDES VARELA E PALAVRAS DE MACHADO DE ASSIS

P. 48

Depois da morte de Castro Alves em “(…) 1871, tornou-se Fagundes Varela o mais querido e popular poeta vivo do Brasil”. Levava uma vida boêmia e morreu jovem, em 1875, aos trinta e três anos.

Varela foi apresentado a Narcisa Amália pelo amigo Otaviano Hudson, poeta que também trabalhava para ele como secretário.

P. 49

No Astro Resendense, Hudson escreveu: “A mulher que se libra nas esferas do ideal, tem na fronte resplendente auréola gloriosa que o Criador concede aos gênios. Narcisa Amália faz parte dessa falange”.

Ao conhecer Narcisa Amália, Varela chegou a tentar cortejá-la, mas não obteve retorno às investidas.

P. 51

Mesmo com a negativa, Varela escreveu um poema em sua homenagem, “intitulado Tributo de Admiração, com o subtítulo O Gênio e a Beleza, (…)”.

P. 52

Em 1874, no prefácio que escreveu para o livro de Otaviano Hudson, “sugeriu Varela: ‘Seria para desejar que o poeta fosse mais parco de alusões políticas, principalmente quando se dirige à graciosa Musa são-joanense…’”

Palavras de Machado de Assis

Onde disse: “(…), na crônica A Nova Geração, publicada em 1879 na Revista Brasileira, na análise que, (…), fez do livro Flores do Campo, de estreia de Ezequiel Freire, prefaciado por Narcisa Amália.”

O que disse Machado de Assis: “(…) D. Narcisa Amália, essa jovem e bela poetisa, que há anos aguçou a nossa curiosidade em um livro de versos, e recolheu-se depois à turris eburnea da vida doméstica.”

P. 53

“(…) a simpatia da escritora vai de preferência às composições que mais lhe quadram à própria índole, e, (…), basta conhecer a que lhe arranca maior aplauso, para adivinhar todas as delicadezas da mulher”.

ABOLICIONISTA, REPUBLICANA E PIONEIRA DO FEMINISMO

P. 54

Para Oscar, é definitivo que “Narcisa Amália foi, na seara das reivindicações político-sociais, a mulher brasileira mais arrojada e audaciosa do seu tempo.”

Foi militante “nas campanhas abolicionistas e republicana, e na defesa (…) dos direitos (…) da mulher e da sua emancipação.”

Jornalista Profissional

“Ainda que Violante Atabalipa Ximenes de Bivar, (…), seja ‘tida como a primeira brasileira a fazer e ter jornal’, (…), cabe a Narcisa Amália, de acordo com grande parte dos que se detiveram a pesquisar as origens da imprensa nacional, a primazia de ter sido a primeira mulher a figurar como jornalista profissional e a ganhar projeção em todo o Brasil.”

“(…), desde 1870, quando começou a publicar seus primeiros trabalhos (…) nos jornais de Resende, (…) – periódicos que a poetisa chegou a editorar e revisar profissionalmente – que ela passou a fazer jus a essa glória.”

Fundou em 1884 o periódico Gazetinha, destinado às mulheres com “artigos de orientação moral e cívica, (…), além de poemas, folhetins e notinhas sociais”, “que saía quinzenalmente, acoplado ao Tymburibá”.

P. 55

Antonio Simões dos Reis em 1948: “Nesse livro não combato, mas procuro retirar do esquecimento a primeira mulher brasileira que viveu na tenda do jornalismo, fazendo jornal com entusiasmo e abnegação. Talvez possa dar-lhe o título de primeira jornalista profissional do Brasil”.

São de mesma opinião “Artur de Almeida Torres, pesquisador resendense, (…)” e “o historiador maçom Isaú de Almeida Lôla”.

Em 1992 o jornal resendense A Lira publicou que Narcisa Amália “foi ‘a primeira mulher a trabalhar na imprensa e editar jornais no Brasil…’”

A Abolicionista

P. 56

Além da influência da família, Narcisa Amália conheceu a realidade da escravidão “nos canaviais da planície campista”. Afirmou a autora em carta de 1880: “Desde que comecei a raciocinar, manifestei as mesmas ideias e os mesmos sentimentos, que manifesto hoje, em relação ao senhor e ao escravo, ao opressor e ao oprimido”.  

P. 57

Seus poemas sobre a escravidão eram vistos como ousados na época. “E às mulheres, (…), segundo os ditames daqueles tempos, não competia intervirem em assuntos políticos polêmicos, somente reservados aos homens”.

“Grupos abolicionistas de grandes Capitais, como São Paulo e Rio de Janeiro, passaram a ver nela o símbolo da nova mulher que surgia, insubmissa, ousada e talentosa”.

Nos textos em prosa, o tema da escravidão também aparecia, como no prefácio que escreveu do livro Flores do Campo, de Ezequiel Freire (1884). Tinha José do Patrocínio como um ídolo e escreveu sobre ele em um artigo para o jornal O Garatuja em 1888.

P. 58

Por ser abolicionista, mulher e jovem, Narcisa Amália era mal vista pela elite escravagista, mas não ligava para as ofensas.

P. 59

Relembraram o aspecto social da poesia de Narcisa Amália Francisco Prisco, em 1923, Afonso Costa, em 1930, e Duvitiliano Ramos, também sanjoanense, em 1945.

Visão compartilhada com Gercy Pinheiro de Souza, Oscar afirma: “Esse sentimento social (…) foi o que de certo modo mais identificou a vida literária da poetisa (…). Nesse aspecto, foi ela até agressivamente radical.”

“Poderíamos até mesmo dizer que, (…), teria sido ela a primeira poetisa social do Brasil, e ainda, talvez, a mais patriota das mulheres de sua geração”.

P. 60

Brito Broca concorda com Gercy Pinheiro de Souza na comparação entre Narcisa Amália e Castro Alves, que utilizavam da poesia para se posicionar contra a escravidão.

Em 1971, Otto Maria Carpeaux afirmou que “o romantismo de Narcisa Amália nada trazia de piegas, nem sua poesia era ‘choraminguenta’, como a quis ver simplisticamente o consagrado Sílvio Romero. (…) ‘como mulher que se emancipou, Narcisa Amália devia falar no estilo do romantismo individualista; mas é inconfundível a inspiração social de sua poesia”.

Na vanguarda Republicana

Nem todos os abolicionistas era republicanos.

P. 61 

“Não foi o caso de Narcisa Amália. (…) em alguns de seus poemas, enalteceu a Revolução Francesa, a Inconfidência Mineira e outros movimentos históricos de rebeldia (…)”.

P. 62

Nos artigos de jornal, Narcisa Amália também criticava o império. Segundo Duvitiliano Ramos, “seu republicanismo é alguma coisa de definitivo, de muito arraizado, é a própria voz da coletividade brasileira (…)”.

P. 63

Pioneira do Feminismo no Brasil

“Muitos a veem, até mesmo, como a pioneira dessa campanha do País.” Narcisa Amália reforça o pensamento “em carta publicada em A Família, em (…) 1886, (…)”.

P. 64

As mulheres analfabetas na época chegavam a 90% e “essa situação deprimente amargurava Narcisa Amália, que teve a sorte de nascer filha de dois excelentes educadores, (…)”. Ainda assim, ressentia-se por não poder cursar um curso superior, na época exclusivo a homens de famílias abastadas.

P. 65

Não são unanimes as opiniões sobre seu pioneirismo no feminismo, como aponta o escritor Barros Vidal ao dar o título à poetisa Nísia Floresta Brasileira Augusta.

“(…) ‘A esse respeito, chegou a escrever uma carta a Josefina Álvares de Azevedo, carta esta publicada num dos dez últimos números de A Família.’”

Já o escritor Isaú Almeida Lôla e a Grande Enciclopédia Delta-Larousse consideram Narcisa Amália como pioneira.

P. 66

Narcisa Amália é patrona de uma cadeira na Academia Resendense de História.

P. 67

NOVO CASAMENTO, NOVO DESENGANO

Narcisa Amália continuou escrevendo poemas e artigos. Em 1874, para o lançamento da revista Lux, Narcisa escreveu um conto, algo raro em sua produção.

Em 1876 morrem sua irmã, seu ex-marido, de quem Narcisa Amália ainda gostava, e seu pai.

P.  68

Sendo o pai o principal provedor da família, as dificuldades financeiras após sua morte levaram Narcisa Amália a ir morar na Corte e sua mãe a se mudar para a casa de uma outra filha, que era casada com um comerciante rico. Insatisfeita com a mudança, Narcisa Amália voltou para Resende pouco tempo depois, e decidiu casar-se. O pretendente foi Francisco Cleto da Rocha, padeiro da cidade. Casaram-se em 1880.

P. 69

No início da união, envolvida com as tarefas da padaria, a produção literária de Narcisa Amália diminuiu, mas a poetisa continuava recebendo amigos escritores, como Raimundo Correa, Luís Murat e Alfredo Sodré, e organizando saraus.

Também relatam a organização de sessões espíritas em sua casa.

P. 70

Em 1874, recebeu visita de D. Pedro II, que a conhecia de visita anterior à Resende.

Ao vê-la “receber visitas de tantos e tão importantes admiradores” e “não podendo alcançar, em decorrência de sua ignorância, o nível elevado dos bate-papos literários da mulher com os amigos escritores”, seu marido Cleto da Rocha começou a afastá-la da literatura.

P. 71

A postura do marido resultou em brigas que levaram o casal à separação e ao desquite judicial por volta de 1887. Em seguida, Cleto da Rocha passou a difamá-la, afirmando que Narcisa Amália nunca escrevera os versos a ela creditados e que os conseguia com amantes.

PROFESSORA NO RIO DE JANEIRO

P. 74

Após as difamações do ex-marido, Narcisa Amália decide morar no Rio de Janeiro, mesmo que em Resende ninguém acredite nas injúrias, especialmente por várias personalidades importantes serem testemunhas de sua produção, tanto poética quanto na redação de jornal.

Mudou-se com o dinheiro da separação e com a intenção de atuar como professora no Rio de Janeiro.

P. 75

Em 1889 começou a lecionar “como professora de escola pública na Corte, pouco depois transformada, com o advento da República, em novembro daquele ano, em Distrito Federal.”

Começou como professora assistente e logo depois subiu para o cargo de professora catedrática.

P. 76

Em 1897, Narcisa Amália pediu transferência de escola e na Escola Mariana da Fonseca “‘galgou todos os postos no magistério, até jubilar-se quando integrava o Conselho Superior do Ensino da Prefeitura Municipal do Distrito Federal.”

P. 77

“Voltada (…) para a (…) missão de ensinar, Narcisa Amália não se afastou de pronto, (…), das atividades literárias. Apenas diminuiu o ritmo e a quantidade de suas produções em prosa e verso, as quais seriam publicadas na imprensa até 1902, quando então, ao que parece, cessariam de vez.”

Recebeu duas homenagens no início do século XX: dedicação de versos por Zalina Rolim e Julia Córtines, e apreciação a sua obra no Almanaque das Senhoras por Felismina Torrezão e Julia Gusmão.

Mas Narcisa Amália “tornara-se pouco a pouco, após completar cinquenta anos de idade, inteiramente ‘alheia ao movimento literário’. (…) Os tempos eram outros, ela começava a envelhecer, os jornais não mais a procuravam, as novas gerações se voltavam para outros ídolos que surgiram com o despontar do novo século.”

P. 78

Narcisa Amália se aposentou em 1918, “‘bem doente’, já quase cega e andando com dificuldade”.

P. 79

O CREPÚSCULO DA ESTRELA

Antes da aposentadoria, Narcisa Amália mudou-se de São Cristóvão para Rio Comprido, indo morar com “um casal de amigos – Dr. Sylvestre Moreira, cirurgião-dentista militar, e sua esposa, Alice Violeta Rocha Moreira.

Ruth Jácome de Campos, sobrinha de Narcisa Amália, afirma ser Alice Violeta enteada da poetisa, filha de Cleto da Rocha de um relacionamento anterior ao do padeiro com Narcisa.

Destinou em seu testamento a pensão da aposentadoria aos filhos do casal com quem morava.

P. 81

Morreu em 24 de julho de 1924, aos setenta e dois anos de idade na casa em que morava com a enteada. “A causa-mortis, atestada pelo médico Henrique Roxo na certidão de óbito foi ‘arterio-esclerose cerebral – colapso cardíaco’. O sepultamento ocorreu no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.”

Sua morte teve pouca repercussão na imprensa.

P. 72

EPÍLOGO

Não foi esquecida por “seus conterrâneos de São João da Barra, assim como a intelectualidade de Resende e de Campos, (…).”, recebendo homenagens no centenário de nascimento, 3 de abril de 1952.

Em Niterói, “por iniciativa do deputado Geraldo Rodrigues”, resendense, “a Assembléia Legislativa fluminense dedicou toda uma sessão festiva ao evento.”

Em São João da Barra, foi decretado feriado municipal, “houve desfile cívico do Grupo Escolar Alberto Torres, (…), além de sessão solene na Câmara Municipal. (…) Inaugurou-se, na oportunidade, no salão do Legislativo Municipal, um retrato emoldurado da poetisa.”

P. 83

Em Campos, por iniciativa da Academia Pedralva e de alguns representantes da Academia Campista de Letras, “houve programação festiva”. 

Como outras formas de homenagem, há ruas com seu nome em Resende, São João da Barra, Rio de Janeiro e outras cidades, é patrona das cadeiras nas Academia Carioca de Letras e Academia Resendense de História. Uma escola em Guaratiba leva seu nome além de um dos departamentos da Academia Fluminense de Letras e do Centro Cultural de São João da Barra.

Parte II – Poesias completas de Narcisa Amália

Transcrição integral do livro NEBULOSAS

P. 89

Prefácio

“Quando em uma nação, as artes, as letras, as ciências, cumprem o inglório destino da planta que nasce, vive e morre dos abismos de um subterrâneo, ou do mendigo na festa do opulento, e representam o papel humilde de uma nave arruinada, de um campanário sumido nas heras, entre os suntuosos palácios da cidade vaidosa, essa nação tem chegado ao seu último grau de decadência. Nessa hora triunfam os analfabetos, os mercadores de escândalos, os demolidores de tudo quanto é nobre e principalmente do que constitui o orgulho de um país – a sua glória literária.”   

P. 93

“Sim; eu creio nos esforços da literatura, nos resultados eficazes da poesia.”

P. 95

“Quando houver um Conselho de Estado ou um Senado Literário, Narcisa Amália terá as honras de Princesa das letras.”

“Foram as suas antecessoras auroras efêmeras; ela é um astro em órbita determinada.”

P. 97

“A acumulação, figura que desenvolve e torna mais clara e mais sensível a ideia principal; as hipérboles, que levam, às vezes, o espírito a extravagâncias, (…).”

“Exemplos de antíteses e epifonemas vai a sutil inteligência do leitor colhendo à medida que termina um hino, ou idílio.”

“As figuras do ornamento, as aposioposes, as gradações, as alusões, e as figuras de movimento e paixão se apostam e se disputam, em rivais competências, para exigir da crítica a confissão de que elas oferecem batalha. Nesta poesia há uma admirável exuberância de tropos, e a optação, – raríssima figura em os nossos livros de maior nome, – tem ali a sua majestade. Os pleonasmos e as silepses andam em todo o livro tão obedientes, como o porta-ordens de um Estado-maior.”

P. 98

Comentários sobre as poesias 25 de março, Resende, Os Dois Troféus.

P. 101

Primeira Parte

NEBULOSAS

Sobre inspiração, criatividade e o processo de criação.

P. 104

À MINHA MÃE

Invocação para a natureza admirar sua mãe.

P. 105

SAUDADES

Infância vivida em São João da Barra.

P. 107

LINDA

Exaltação e efemeridade da beleza.

P. 110

AFLITA

Dedicado “à J.”, descreve a partida do marido e os sentimentos de desamparo.

P. 112

ASPIRAÇÃO

Descrição de aparência e brincadeiras de uma criança.

P. 113 

CONFIDÊNCIA

Dedicado “a Joanna Azevedo”, relata a saudade e reforça a lembrança da amiga.

P. 114

DESENGANO

Exaltação do sofrimento como Álvares de Azevedo, narra os momentos de desilusão e a aceitação da dor que termina apenas com a morte.

P. 116

DESALENTO

Mudança de percepção em relação aos sentimentos românticos quando encarados na juventude em oposição quando encarados na vida adulta.

P. 117

AGONIA

Comparações para o sentimento de fim da vida.

P. 118

CONSOLAÇÃO

Paródia de poesia de Ezequiel Freire, ameniza a morte

P. 119

AMARGURA

Passagem de um estado de crença para um de descrença.

P. 121

FRAGMENTOS

A dor da desilusão amorosa. Súplica por salvação da dor. Solução.

P. 123

CISMA

Saudades da infância.

P. 124

RESIGNAÇÃO

Saudade de uma época sem sofrimento.

P. 126

INVOCAÇÃO

Exaltação da pátria. Direito da mulher de escrever.

P. 128

Segunda Parte

NO ERMO

Exaltação da natureza, provavelmente de Resende.

P. 132

O ITATIAIA

Exaltação da natureza de Resende. Nota da autora na p. 200 sobre a serra ser o “ponto culminante do Brasil”.

P. 136

VINTE E CINCO DE MARÇO

O título faz referência à primeira Constituição do Brasil e o texto traz críticas ao Império. Nota da autora na p. 200 sobre a alusão ao projeto nas duas primeiras estrofes.

P. 138

MANHÃ DE MAIO

Dedicado “a Brandina Maia”, relata um momento bucólico em meio à natureza.

P. 140

A  RESENDE

Apresenta a cidade como um refúgio e estabelece uma conexão com São João da Barra na penúltima estrofe. Nota da autora na p. 200 sobre a oficina do dr. Pedro Américo de Figueiredo e Mello.

P. 143

MIRAGEM

Compara a liberdade em elementos da natureza com a liberdade humana, aspirando com o fim da escravidão dos negros.

P. 146

LEMBRAS-TE?

Exaltação da natureza como resposta a um questionamento. Dedicado “a Adelaide Luz”.

P.148

À LUA

Comparação da lua com uma mulher.

P. 150

SETE DE SETEMBRO

Homenagem à emancipação brasileira do reino de Portugal em 1822.

P. 153

A NOITE

Exaltação da noite.

P. 155

VEM

Invocação do sono.

P. 157

PESADELO

Dedicado “a meu pai, sr. Jácome de Campos”, descreve guerras românica, francesa e brasileira. Revolução praieira

P. 162

Terceira Parte

CASTRO ALVES

Homenagem ao poeta que dá nome ao poema após sua morte.

P. 165

A A. CARLOS GOMES

Homenagem ao compositor Carlos Gomes antes de sua partida para a Itália.

P. 166

VISÃO

Visão da esperança em um momento de sofrimento.

P. 168

FESTA DE SÃO JOÃO

Recordação da Fazenda Esperança.

P. 173

RECORDAÇÃO

Dedicado “a Adelaide Luz”, saudades da infância. Nota da autora na p. 200.

P. 174

O SACERDOTE

Exaltação das qualidades santas, dedicado “ao revmo. sr. Vigário Felipe José Correia de Mello”.

P. 176

AMOR DE VIOLETA

Descrição de uma cena bucólica.

P. 177

O AFRICANO E O POETA

Dedicado “ao Dr. Celso Magalhães”, descreve os sofrimentos do negro escravizado e coloca o poeta como o único capaz de entender.

P. 180

SANDNESS

Processo criativo baseado na tristeza.

P. 181

O BAILE

Descrição de uma festa com um fim infeliz.

P. 183

FANTASIA

Experiência do primeiro amor.

P. 185

NOTURNO

Natureza observação o sofrimento.

P. 186

JULIA E AUGUSTA

Descrição e comparação das mulheres com elementos da natureza.

P. 188

A ROSA

Desilusão amorosa.

P. 190

AVE-MARIA

Descrição do anoitecer.

P. 192

OS DOIS TROFÉUS

Tradução do poema de Victor Hugo sobre

P. 203

Poemas esparsos

P. 205

ACEITAS?

Dedicado “a Januária Carneiro”, descreve a beleza da mulher dormindo.

P. 206

IDÍLIOS

Criação do mundo segundo a Bíblia.

P. 208

POESIA

Dedicada “aos meu Conterrâneos e ao Povo Resendense”, Narcisa Amália descreve sua trajetória com a poesia.

P. 210

ENSAIOS LITERÁRIOS

À SOCIEDADE BRASILEIRA

Afirma que a fama alcançada com a escrita será usada para “sonhar um futuro melhor”.

P. 212

FATALIDADE

Resignação diante do pior desde que seus ideais não sejam perdidos.

P. 213

PERFIL DE ESCRAVA   

Relação senhor e escravo.

P. 214

SPES SOLA

Submissão ao amor.

P. 215

VIOLETA MORTA

Comparação de sentimentos com a flor.

P. 216

VERSOS ANTIGOS

Dedicado “a J.”, o primeiro ex-marido, descreve a resignação em amá-lo mesmo depois de ser abandonada.

P. 217

PORQUE SOU FORTE

Dedicado “a Ezequiel Freire”, descreve o início dos desentendimentos com o segundo ex-marido.

P. 218

OUVINDO UM PÁSSARO

Medo da desilusão amorosa apresentado como antecipação.

P. 219

SOB AS FRONDES

Contemplação da natureza por um apaixonado.

P. 220

CISMANDO

Dedicado “a Gaspar da Silva”, diretor do jornal em que o poema foi publicado, busca as belezas do universo na poesia.

P. 221

PELAS SOMBRAS

Súplica por amor.

P. 222

REMISNICÊNCIA

Saudades de um lugar do passado.

P. 223

CONFISSÃO

Confissão de uma paixão e como o sentimento transforma o modo de ver o mundo.

P. 225

CONDOLÊNCIA

Crítica à postura passiva dos brasileiros quanto a criação de prisões e fechamento de escolas.

P. 226

SANCTUS LABOR

Descrição da natureza, do ciclo de germinação de uma semente.

P. 227

O LAGO

Descrição da natureza.

P. 228

RECORDAÇÃO FATAL

Comparação de um momento triste com a morte de um pássaro.

P. 229

O ENJEITADO

Poema psicografado por Chico Xavier, descreve o assassinato de uma mãe pelo filho que ela abandonou.

P. 230

TROVAS

Poema psicografado por Chico Xavier, descreve o amor de uma mãe apesar dos maus-tratos do filho.

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